quinta-feira, setembro 01, 2005

Katrina, a Devastadora

Não, não é um título de um filme.
A devastação é sempre do outro lado do mundo, as tragédias raríssimas vezes nos batem à porta. É fácil ignorar ou ler as notícias como se de um filme hollywoodesco se tratasse. O pior é que desta vez estou do outro lado do mundo...
Não se fala noutra coisa. É notícia em todos os jornais e as previsões são terríveis. Falam-se em milhares de mortos.
Há 25000 pessoas a viver num estádio de futebol americano! Milhões de desalojados.
Um cenário Dantesco.
Os Americanos têm muitos defeitos, um dos mais comummente enunciados é a hipocrisia, mas se a hipocrisia os leva a oferecer bens de primeira necessidade dois minutos depois de saberem a dimensão da tragédia, seja. Não me interessa se a intenção é fazê-lo com plateia ou não, o resultado está lá.
É fabuloso ver a faculdade com caixotes em todas as entradas/saídas para se deixar arroz, farinha, leite, latas de conserva... Não é um banco alimentar anual, é uma reacção a uma necessidade real e actual.
A vida continua, todos sabemos isso - os americanos talvez melhor que outros - mas para os habitantes de Nova Orleães a vida só voltará à normalidade em 3 meses.
São pessoas que durante os próximos três meses não se vão sentar no sofá preferido a ver as Desperate Housewives, passear o cão enquanto comentam os vizinhos, jantar em família a falar do dia de escola dos filhos...
E não, não é um filme.

5 Comments:

Blogger INF said...

Sim, de facto, não é uma super produção cheia de efeitos especiais.
Para quem está aí a sensação deve ser (mais ainda) esmagadora.
Os efeitos colaterais destas degraças costumam ter algo de perverso. As pessoas a pilharem Nova Orleães em busca de comida e medicamentos e a dificuldade em distiguir o que são comportamentos motivados por um estado de extrema necessidade e aqueles que redundam no mais grosseiro oportunismo.
Dizia-se ontem que as autoridades estavam especialmente preocupadas com os casinos, que se supõe terem algum dinheiro de reserva.
Uma das senhoras entrevistadas dizia algo encolerizada que não era tempo para parvoíces de homens armados a patrulharem as ruas. Há coisas mais importantes. Como por exemplo o facto de ela precisar de insulina e não ter.

12:39 da tarde  
Blogger diane said...

É impossível ficar indiferente, mesmo quando se está "deste lado" do mundo.
Não é preciso estar do "outro lado" para que a realidade nos afecte. Seja o outro lado a América Latina, o Iraque, a Serra Leoa ou os Estados Unidos.
Faz parte da nossa consciência cívica.
Se assim não fosse, não haveria ONG´s e missões humanitárias.
Embora admita que a comoção in locco seja mais incontornável.

12:52 da tarde  
Blogger AMJ said...

O pecador sou eu... eu é que nunca me deixei afectar muito pelas grandes catástrofes, sempre me impressionei mais com a inundação sazonal da baixa de algés ou da Ribeira no Porto do que com o "el niño".
Fora de brincadeira, confesso que sempre me preocupei mais com o meu quintal do que com o jardim dos outros - e bem, na minha opinião - mas agora infelizmente já não posso fazê-lo, já não estou no velho país de brandos costumes (e climas). Aqui a desgraça bate à porta... mas ninguém se queixa.

3:12 da manhã  
Blogger diane said...

Ninguém se queixa? Como assim?
A desgraça não precisa de bater à porta ; basta termos o olhar e os ouvidos disponiveis para a ver e a ouvir.
Como dizia a Sophia de Mello Breyner "este é o tempo da tomada de consciência".Seja a consciência local ou global. Como o mote das ONG´s: "Think global, act local".
Ter consciência de por vezes não se tem, é já uma tomada de consciência.

12:07 da tarde  
Blogger diane said...

adenda à ultima frase: ter consciência de que por vezes não se a têm, é já uma tomada de consciência.

12:08 da tarde  

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