quarta-feira, setembro 14, 2005

It's all about the penguins!


Desenganem-se os que pensam que todos os argumentos, statements, e chavões sobre as tidas como questões fracturantes da sociedade se esgotavam no mundo humano.
A julgar pelo que passarei a descrever as achas para a fogueira vêm agora do mundo animal.
Mais concretamente, dos pinguins.
Tenho alguma relutância em falar sobre filmes que nunca vi. Aliás, toda a relutância, por ser uma contradição óbvia nos termos. Mas, neste caso, o filme é um documentário e um documentário da National Geographic sobre os pinguins. “The March of the penguins”. Narrado por Morgan Freeman.
É desculpável falar-se, não em termos analíticos, mas em jeito de "promo" de um filme que nunca se viu quando a ideia é aguçar os apetites. E toda a gente sabe que não há nada como reacções polémicas em cadeia para encher salas de cinema. (O Nine Songs é um bom exemplo disso.) Mesmo que seja para ver um documentário sobre pinguins.
E porque é que um filme sobre umas aves esquisitas que não voam e vivem no gelo tem potencial para polémica?
“Each winter, alone in the pitiless ice deserts of Antarctica, deep in the most inhospitable terrain on Earth, a truly remarkable journey takes place as it has done for millennia. Emperor penguins in their thousands abandon the deep blue security of their ocean home and clamber onto the frozen ice to begin their long journey into a region so bleak, so extreme, it supports no other wildlife at this time of year. In single file, the penguins march blinded by blizzards, buffeted by gale force winds. Resolute, indomitable, driven by the overpowering urge to reproduce, to assure the survival of the species.
Guided by instinct, by the otherworldly radiance of the Southern Cross, they head unerringly for their traditional breeding ground where - after a ritual courtship of intricate dances and delicate maneuvering, accompanied by a cacophony of ecstatic song - they will pair off into monogamous couples and mate.”
In http://wip.warnerbros.com/marchofthepenguins, sinapse.
Aparentemente nada.
Pois, é um filme sobre pinguins. Mas é também a nova coqueluche dos americanos conservadores e republicanos. Romarias para ir ver o filme. Grupos cristãos a dizerem que o filme é a melhor coisa do mundo. Enfim, o segundo documentário mais visto nos EUA a seguir ao Fahrenheit 9/11 do Michael Moore. E tudo porquê? Aparentemente, os pinguins e a sua vida no gelo são um exemplo para qualquer cristão que se preze.
Senão vejamos, Richard Lowry, editor do National Review e citado no New York Times ,exortando os jovens conservadores num encontro : "You have to check out 'March of the Penguins.' It is an amazing movie. And I have to say, penguins are the really ideal example of monogamy. These things - the dedication of these birds is just amazing."
E Richard A. Blake, também citado no NYT, "You get a sense of these animals - following their natural instincts - are really exercising virtue that for humans would be quite admirable. I could see it as a statement on monogamy or condemnation of gay marriage or whatever the current agenda is."
Eis que, bicho preto e branco por bicho preto e branco sempre fui mais miúda de pandas, mas isto tenho que ver.

1 Comments:

Blogger FPB said...

Usar animais ou símbolos metaforicamente/alegoricamente ou para proveito próprio poder-se-á dizer que é mesmo à americana. Veja-se o caso da cadela Laika, usada para demonstrar a superioridade sobre os soviéticos na época da Guerra Fria. Ou a mitologia por detrás da Branca de Neve e seus Sete Anões, que representariam as tendências comunistas ou depravadas de Walt Disney. Apesar de haver outros exemplos bem mais próximos, como o de o aproveitamento do cadáver de uma cegonha para justificar incompetências evidentes.
Os pinguins são um dos meus animais favoritos por causa da con(tra)dição que lhes foi imposta sorrateiramente pela Natureza: o jeito desengonçado quando em terra firme vs. a graciosidade de um golfinho subaquática. E pela sua teimosia, claro, bem descrita no post de INF.
Deixem os pinguins em paz. Eles querem lá saber do que é que nós achamos das suas orientações sexuais. E tenho a certeza que se houvesse uma tela gigante lá para os lados do Pólo Sul que mostrassem filmes eróticos envolvendo humanos que eles não seriam ignorantes ao ponto de achar que toda a raça humana tinha tendências misóginas e de começar um movimento anti-monogamia. Pelo menos grande parte deles, não sei. Alguns nadariam graciosamente até Hollywood.

7:20 da tarde  

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