quinta-feira, novembro 17, 2005

Não lhe passou pela cabeça...

...que talvez o país não se queira mexer?
A inércia é em si mesma uma resposta à política de baixo ventre que o executivo socialista insiste em querer vender e que o bloco de esquerda promove para se pôr em bicos dos pés.
Portugal está (e o executivo devia estar) mais preocupado com problemas de fundo.
Não me entendam mal, não estou a fazer juízos de valor quanto ao aborto ou mesmo quanto ao facto de se ser homossexual. Respeito as escolhas de cada um, tanto no primeiro como no segundo, concordando ou não com a primeira e partilhando ou não a segunda.
A sexualidade vende jornais, todos sabemos, e a pornochachada mais ainda. Infelizmente é pena que não percebam que o "tuga" adora parar para ver os feridos num acidente, mas odeia ser parte de um. Querendo isto dizer que é muito engraçado ler e ver na televisão que o "governo quer mudar a lei do aborto e fazer com que os maricas se casem", mas em última análise o que os taxistas, talhantes, merceeiros, cabeleireiros, médicos, advogados, economistas, gestores, empregados de mesa (etecetera e tal) falam, é do estado da economia; do facto de não terem dinheiro para comprar um carro novo, um frigorifico, um aquecedor ou até mesmo um bom casaco para o inverno que se avizinha... isso é que os preocupa. Se os "maricas" se casam ou se o aborto é crime é coisa que não lhes tira o sono.
Infelizmente a malta não percebe e faz do aborto e do maricas o que se fazia do futebol e fado nos tempos idos da ditadura e do pão e jogos na Roma imperial: areia para os olhos.
A mim parece-me uma tremenda falta de respeito andarem a usar Mães (provavelmente devastadas pela "interrupção voluntária da gravidez" que nunca é fácil para um ser humano normal) e homossexuais (sérios e convictos das suas preferências sexuais e que pretendem viver uma vida normal e sossegada a dois) como bandeiras, expondo-os desnecessariamente na maior das vezes.
Quando a casa está de pantanas não se deve começar por pôr o napron em cima da televisão, talvez seja melhor ideia aspirar e limpar o pó primeiro e deixar as discussões decorativas para depois... mas isso sou eu, que prefiro que esteja limpo a que pareça bem.

9 Comments:

Blogger lux said...

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11:44 da manhã  
Blogger lux said...

Passo a citar:
"maricas"
"ser humano normal"
"preferências sexuais"
"opção".

Se se fala de aspirar e limpar o pó, antes da casa. que tal na cabecinha primeiro? Sim, porque afirmar peremptoriamente e inconsequentemente que a homossexualidade é uma opção, é coisa de quem lê a FHM e daí retira as definições conceptuais da sexualidade. Ou isso ou de quem não faz ideia do que está a dizer.
Tanta preocupação social poderia estar mais arrumadinha, nomeadamente ao nível dos conceitos.
Aliás, caríssimo AMJ, se procurasse aprofundar mais ideias que tem sobre o aborto (concorde ou não), em vez de dissertar sobre o "pacote" (mais um belíssimo post da sua autoria), talvez percebesse que também este tema entronca com a discussão sobre os temas da exclusão social, da pobreza e todos os outros de que fala, a meu ver, na perspectiva tipicamente assistencialista que vem caracterizando a sua escrita.
Ademais, é curioso que venha falar de prioridades sociais quando os dias que lhe correm mal são os dias em que o pneu da dona bina fura.
Limpo seria um discurso que não falasse em seres humanos normais (seja lá o que isso for), em preferências que não existem, em decisões que não são tomadas só porque sim. Limpo seria não tratar a discriminação como um assunto de segunda.
Limpo seria não avaliar as prioridades e actuações dos outros com base nos nossos (pre)conceitos.

11:47 da manhã  
Blogger INF said...

Meus caros Lux e AMJ,

Uma das coisas que mais aprecio no Teorema de Pitágoras, e uma das razões pelas quais aqui escrevo, é o facto de acolher ideias completamente diferentes sobre o que é/deve ser a sociedade.
Dito isto, subscrevo integralmente e sem reservas o que escreve (a também minha "colega" de blog em em outras paragens) a Lux.
Podia começar por falar do que me fez à bilis ler aquele post do AMJ em que se referia ao corpo da mulher como pacote mas esse post já lá vai. E, na altura, preferi medicar a dita bilis do que mandar-te a ti, AMJ, ir empacotar as tuas ideias para outro sítio.
Até sou capaz de compreender o que dizes em relação ao Bloco de Esquerda que usa e abusa dos chavões, e da lógica da bandeira pela bandeira, do movimento pelo movimento, bem à maneira do Trotsky que tanto dizem não os inspirar.
Mas discordo em absoluto daquela que é, no fundo, a lógica que subjaz ao teu post: a de que não interessa para nada discutir estas questões e legislar sobre estas questões porque o Zé taxista está se marimbando para elas.
A lógica de que o estado deve ter intervenção mínima no que respeita às opções de cada um é perfeitamente aceitável.
Só que tu chamas opções ao que não são, na verdade, opções.
Abstraindo da forma preconceituosa e debochada como te referes às mulheres e aos homossexuais, tratas questões de direitos fundamentais e de saúde pública como se se tratasse de preferir esta ou aquela cor para a parede da sala.
Sempre que, em virtude da sua orientação sexual, alguém tiver menos direitos que a restante população o estado deve intervir.
Adoro, porque é delicioso, o argumento paternalista em relação aos homossexuais que não querem ver estas discussões na praça pública porque querem a sua intimidade preservada.É lindo. É isso mesmo que se quer não é? Tudo quietinho e bem acomodado para não ferir as vistas de ninguém "com preferências normais".
A única "vida normal e sossegada" que se pretende preservar aqui é a de quem sustenta que estas coisas não devem ser objecto de tratamento legislativo.
E devem. Sem referendos. Em sede própria. Na Assembleia da República.

12:18 da tarde  
Blogger Mendes Ferreira said...

desculpem lá mas este país está mesmo uma MERDA.!

7:42 da tarde  
Blogger AMJ said...

Caras Lux e INF,

Antes de mais agradeço a urbanidade por parte da INF, ao contrário da Lux (que não conheço) que pretende julgar as minhas preocupações sociais com o facto de achar um galo o pneu da minha bicicleta ter furado. Acredite, esperava as suas criticas (não necessariamente vindas de si, mas pelo menos da minha amiga INF), aliás não só as esperava como as desejava. Dá-me gozo este tipo de discussão. O que eu não acho bem é que a sua opinião se queira impor à minha ou ao valor que dou a um pneu furado no meu dia.

Usei a terminologia, que tão bem citou, voluntariamente, aliás o post chegou a ter um post scriptum a explicá-la, mas que entendi retirar para não retirar o gozo de pessoas como a Lux contestarem a linguagem usada.

Não me apeteceu ser politicamente correcto, quis dar voz a uma boa parte (no meu pequeno entendimento, a maior) de Portugal, que chama os homossexuais de maricas ou paneleiros, muitas das vezes sem sentido depreciativo, só porque a palavra lhes parece mais bonita (talvez seja a musicalidade, quem sabe)

E minha prezada Lux, a sexualidade é uma escolha (os padres que o digam), mais: o amor também é uma escolha, é escolher uma pessoa (seja homem ou mulher) para passarmos os nossos dias. Eu nunca usei a expressão concordar relativamente à homossexualidade, optando pelo uso da palavra partilha referindo-me a essa escolha.

Mais, quando falei em pessoas normais não me estava a referir nem a heterossexuais, nem a homossexuais nem a mulheres que fazem ou não um aborto, o que eu quis dizer e que a Lux tão bem soube descontextualizar, foi que um ser humano normal sofre sempre a perda de um feto, quer lhe atribua vida quer lhe atribua a potência de vida.
Ignorar isso é desvalorizar completamente o processo de criação de vida e a dinâmica que esse tem com a Mãe e o Pai da criança (ou potencial criança). O sofrimento existe num ser humano normal (com vontade esclarecida, ie. sem desiquilibrios mentais) e quiçá lhe assole algumas noites menos agradáveis (e não digo isto como um desejo de castigo ou penitência, digo-o de uma forma neutra e factual, porque sei que assim acontece com pessoas que muito prezo).

Quanto à discriminação, não sou homofobico, não condeno pessoas que tenham feito um aborto e posso apenas falar por mim quando até acho que os homossexuais se possam casar (a adopção será uma questão diferente, mas isso é areia demais para a minha bicicleta de pneu furado, talvez outro dia) para poderem ter beneficios fiscais, comunhão de bens e poderem usar o nome de um deles (seja ele qual for) no Bilhete de Identidade.
O que eu acho é que esses homossexuais não ligam tanto a isso mas sim à normalidade que pretendem que lhes paute a vida. Livre de discriminações positivas ou negativas. Sim Lux, as positivas também são uma maçada...
Acha sinceramente que um homossexual (e não um bicha - depois se quiser explico-lhe a diferença) vai gostar de ser feito bandeira? Acha mesmo que uma senhora que fez um aborto gosta de ser vista na TVI de braço dado com o Louçã e a Odete para toda a gente saber a decisão pessoalissima que ela tomou? Descrimine-se ou incrimine-se... agora pornochachadas é que não!

Continuando no aborto e referindo-me expressamente ao "pacote", sobre o qual escrevi lá vão umas semaninhas e que a Lux voltou a descontextualizar primorosamente, a linguagem foi mais uma vez propositadamente chocante, o que eu pretendia com esse post era ilustrar a necessidade da decisão de interromper a gravidez ser tomada a dois, mas estou em crer que mulheres de armas como a Lux gostam de monopólios.
O que eu queria dizer era basicamente que lá por a mulher (sortuda) carregar o filho - desculpe, feto - este foi feito a dois e se o pai não for desconhecido, incapaz ou violador (podem haver mais casos, mas não me apeteceu ser exaustivo) então deve ter um voto na matéria. Infelizmente a Lux não percebeu ou não quis perceber...

E não, não considero a descriminação um assunto de segunda, mas enjoa-me (sim é essa a palavra) a maneira como pessoas - certamente a Lux não estará incluída - fazem disso a sua bandeira e depois, na privacidade dos amigos até atiram um "maricão" ou "panasca" só para ter graça. Ou pior, querem tanto fazer do corpo da mulher a arma e o valor soberano que o impõem sobre pais (maridos, namorados ou acidentais) que podem e devem ter uma palavra a dizer. Ditadura do corpo feminino, é assim que eu lhe chamo.

E concedo-me o direito de julgar o governo eleito em Portugal, porque a qualidade de cidadão português mo permite. Não julgo, repito, as mulheres que abortam ou os homossexuais.
Julgo o "meu" governo porque acredito que neste momento a prioridade não está em promover essas questões, mas sim as questões que podem efectivamente melhorar a vida da generalidade dos portugueses, sejam eles homossexuais ou heterossexuais, mães ou mulheres que abortaram.

Ademais, não volte a assumir o furo do pneu da dona bina como o meu critério de prioridade social, acredite que foi do mais profundo mau gosto.

INF, mais uma vez um beijinho e desculpa não te responder mais directamente, mas sinceramente preciso de ir dar uma volta na dona bina para apanhar ar.

10:04 da tarde  
Blogger diane said...

Quem muito explica nada diz.

Desculpem...foi para dar voz aos aforismos populares. Se calhar é por causa da sonoridade, não sei...

10:36 da tarde  
Blogger lux said...

Caríssimo AMJ,
Curiosa a dissertação que acabou por chegar ao mesmo sítio de onde partiu.
Antes de mais, não se descrimina, discrimina-se. Feito que está o intróito passo ao comentário, propriamente dito.
Não irei alongar-me, porque penso estarem bem patentes as divergências. Parece-me ter ferido susceptibilidades ao falar do pneu da dona Bina, vejo que é uma questão delicada. Contudo, não me referi a ela como a primordial das preocupações sociais. Acaso tivesse lido sem os (pre)conceitos teria rapidamente percebido não ser esse o desiderato. Mas retrato-me a ter sido essa a ideia. Porque não era.
Em nenhum momento do texto descontextualizei. As palavras pacote, ser humano normal, foram citadas. Sem referência a qualquer pressuposto em que se baseassem. Porque a utilização destes conceitos não passa por uma questão do "politicamente correcto". É, antes, uma questão de respeito. Respeito pela diferença.
Com pena minha não viu além do óbvio, refugiando-se em frases como sejam "até acho que os homossexuais possam casar", das supostas diferenças entre "bichas" e homossexuais (dipenso qualquer "explicação", agradecida). O discurso define-se a ele mesmo sem necessidade de qualquer consideração.
Mais, não verá nunca a Odete Santos, nem qualquer outra pessoa da mesma força política a usar o intimidade alheia como bandeira. Basta estar com um bocadinho de atenção para perceber isso. Basta estar com um bocadinho de atenção para perceber porque é que estes senhores, e só estes, sempre defenderam a resolução da questão do aborto pela via legislativa. Quanto às demais questões que levanta sobre esta problemática, abstenho-me, mais uma vez, de qualquer comentário, porque não vale a pena.
Uma dúvida: se os homossexuais não querem lutar pelos seus direitos, tem de haver então uma outra razão que explique o facto de muitos se organizarem (Ilga, Não te Prives, LGBT...), organizarem debates e acções de rua... Porque será? Hum...
Mulher de armas como eu? Monopólios? Tradução: generalização sem qualquer fundamentação fáctica ou material. Enfim, mais uma confusão de conceitos. Não, não gosto de monopólios. Por razões mais do que óbvias.
2 notas a finalizar, fantástica a instrumentalização da linguagem, adjectivar para provocar. Não advogo, mas respeito. Por isso comento. Não tento impor a minha opinião. Simplesmente a partilho (partilhar, a palavra que tanto gosta).
E ainda bem que tem uma visão crítica do governo. Se todos concordássemos ou pensássemos o mesmo era "uma maçada". Mas eu tenho o direito a ter uma opinião crítica sobre a sua opinião crítica. Foi o que fiz.
Cumprimentos.

10:23 da manhã  
Blogger AMJ said...

De facto não vale a pena.
A Lux acusa-me de fazer ouvidos moucos ao que escreveu e eu sinto o mesmo.
Azarucho...
Falamos linguas diferentes, o que não tem problema nenhum, nem a Lux nem eu perdemos alguma coisa com a ausência de comunicação entre ambos.

Divirta-se com os comentários que eu, sempre que os achar como achei o seu primeiro a roçar a falta de educação, (porque fez uma "generalização sem qualquer fundamentação fáctica ou material" ao referir o meu mau dia com a bina de uma forma perfeitamente infeliz e que aqui tentou desdramatizar retratando-se atabalhoadamente) nem sequer me vou dignar a responder... uma vez que como diz. "não vale a pena".
Cumprimentos.

4:54 da tarde  
Blogger lux said...

A auto-suficiência é uma virtude magnífica. Achar que a ausência de comunicação é benéfica é auto-explicativa.
O que vale é que eu não preciso, mesmo, de dizer nada. O caríssimo AMJ trata do assunto sozinho. Poupa-me muitas palavras. Obrigada.

10:18 da manhã  

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