sexta-feira, outubro 07, 2005

Sonso

É comum dizer-se que a palavra “saudade” não tem tradução para qualquer outra língua do mundo e esquecer-se de outras que, embora sem um sentido ou significado tão poético, são tão ou mais intraduzíveis. Por exemplo, a palavra sonso, que para mim sempre foi um mistério. Lembro-me de ser puto e repetir o que a minha irmã mais velha chamava a uma amiga – sonsa – julgando que quisesse dizer “pessoa sardenta” (não tendo a rapariga em questão, na realidade, mais que um ou dois sinais praticamente imperceptíveis na cara, o que me deixava bastante confuso). Felizmente, hoje, enquanto adulto inquisitivo que sou, tenho plena consciência que uma pessoa sonsa é uma pessoa de pescoço curto ou inexistente.
A primeira dificuldade para definir ou desenvolver o conceito prende-se com a respectiva fonia. Sonsa rima com amigo(ou amiga)-da-onça, é certo. Mas não é uma associação que se faça facilmente. Até porque sonso, à primeira vista, até se trata de uma palavra fofinha. Consigo imaginar um casal a mimar o seu recém-nascido: “Ó querida, já viste o Afonsinho? É tão sonsinho!”, o que não faria sentido dada a incapacidade de um bebé de ser velhaco ou de fingir ingenuidade. Logo, à primeira vista, não é uma expressão que pareça ser ofensiva, daí ser dos melhores insultos que existam – o insultado só dá conta que o foi algum tempo depois e provavelmente apenas após algum raciocínio. No entanto, é um insulto raramente ouvido em público. Não é de homem ir para um estádio gritar “o árbitro é um sonso!” ou “vai pra casa meu granda filho de uma sonsa”, nem fica bem trocar o “hipócrita” e o “dissimulado” por “sonso” num debate político. Por outro lado, o que dizer de uma pessoa que chama “sonsa” a outra? Não estará ela também a ser sonsa por estar a fazer as coisas pela calada, sem o outro se aperceber? E merecerá cem anos de perdão por isto? Mistérios que um dia gostaria de ver resolvidos.
Depois, o próprio significado da palavra. É um erro frequente (e perfeitamente desculpável) pensar-se que sonso é o contrário de insosso (que se lê “insônso”) e portanto que cool e hip mesmo é ser-se sonso. Quem é que gosta de ser visto como um cinzentão sem interesse cuja vida de apimentada não tem nada? “Ah, ela até era gira, mas era um bocado para o pãozinho sem sal...”. Não pode ser! pensam os adolescentes público-alvo de bebidas alcóolicas light, vamos mas é sair à noite que nem os doidos sonsos que somos!, quando no fundo estão a ser o mais frontais possível (já não sabem o que é a ingenuidade para poder fingi-la). É preciso criar condições nas escolas para evitar este tipo de males-entendidos que podem revelar-se perigosos aquando da entrada destas pessoas no mundo do trabalho.
Por fim, a etimologia da palavra (do castelhano “zonzo”) leva a crer que a pessoa sonsa não tem culpa de o ser por não estar bem em si (está desnorteada ou foi de alguma forma atordoada), o que nunca permitiria que o seu comportamento fingidor fosse doloso. Mais um equívoco que é complicado de desfazer. Até porque, convenhamos, qual o psicólogo que conseguiria distinguir um comportamento ingénuo intencional de uma atitude negligente provocada?
A próxima vez que chamarem alguém de ingénuo pensem duas vezes nos efeitos que isso poderá ter. Pode ser que vos saia o tiro pela culatra. Mas espero que não.

2 Comments:

Blogger f.cicchetti said...

Buona sera, mi scuso se scrivo in italiano e non in portognese, ma sono certo che mi comprenderete. Appartengo ad un forum sui dialetti italiani. La parola "sonso" o "zonzo" è entrata in un dialetto del nord ad opera di persone che l'hanno imaprata in sud america. Non capisco però, a diffrenza di quello che dite, quale sia l'etimologia della parola "sonso" (dal castigliano "zonzo"). Grazie e cordiali saluti

9:32 da tarde  
Blogger alb said...

Se queren info sobre o teorema de pitágogas encontranla no meu blog:

http://teoremadepitagorasblog.blogspot.com/

11:33 da tarde  

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