segunda-feira, outubro 03, 2005

Apocaleclipse

Os tempos que correm não têm piada. Ao contrário dos tempos que dançam e jogam raquetes na praia – esses sim são boa companhia. Mas aborrecidos mesmo são os tempos hodiernos. Antigamente, quando fazia-se noite de dia, vinha tudo para a rua puxar os cabelos oleosos e gritar que o mundo ia acabar. Era Deus Nosso Senhor (um d’Eles) que, irado com tanta avareza, luxúria, gula (sinceramente nunca me pareceu justo que este fosse um pecado que merecesse ser equiparado aos outros – uma pessoa viciada, sei lá, em Petas Zetas ou manteiga de amendoim dar direito a passar o resto da Eternidade ao Inferno?), etc., vinha fechar a loja e mudar-se para outras bandas, e o primeiro corte era na electricidade. Quando o sol reaparecia por detrás da penumbra, uns momentos depois, então falava-se na misericórdia divina, Deus teria pensado duas vezes e dado uma segunda oportunidade (embora não houvesse duas sem três), para que todos pudessem arrepender-se e passar a trilhar caminhos não pecaminosos, todos se ajoelhavam dando graças por aquele ter sido apenas um cartão amarelo e jurando não mais sequer ter pensamentos ímpios. Volvidos dois dias já ninguém se lembrava daquela aflição e voltavam todos a apunhalar-se em bordéis infestados de Petas Zetas.
Hoje em dia não. Há sempre uma explicação para tudo. O sol escurece? É um eclipse, claro. Acontece quando há um alinhamento entre o sol, a Terra e a lua e a sombra desta sobre o sol é projectada na Terra, blá blá blá. Será anelar? Pena não estarmos em Bragança, caso contrário veríamo-lo na sua totalidade. Mas põe lá esses óculos especiais que te fazem parecer um perfeito anormal porque faz mal olhar directamente para o sol. Tudo tem explicação. Não há sinais do apocalipse. Em resumo: piada, nicles.
Giro giro era se isto nunca tivesse acontecido até hoje. Que o primeiro eclipse solar da História da Humanidade tivesse início às 8h38 da manhã do dia 3 de Outubro em Portugal. Era ver o Presidente da Câmara de Bragança a convocar uma conferência de imprensa para acusar a oposição de denegrir a sua imagem em plena campanha eleitoral. Um sócio do Benfica encolhia os ombros e anasalava: “Eh, eu sempre disse que não me importava que o Mundo acabasse desde que ainda conseguisse ver o Glorioso ser campeão”, enquanto assistia aos treinos dos infantis da equipa B, enxotando o interlocutor com “um agora não me distraia” depois de se ter apercebido que não tinha visto um auto-golo fantástico. As sociedades de advogados começariam logo a contar o período de tempo em que o sol não estava a funcionar na sua plenitude e a calcular os efeitos que isto teria sobre os portugueses e a quem é que se poderia assacar responsabilidades (começando por Deus, obviamente, pelo que se deveria iniciar sem falta a penhora em massa de tudo o que fosse bens dos Seus representantes na Terra) e a TVI anunciaria no seu noticiário da manhã: “Casal de idosos dá à luz trigémeos gnus. Não perca esta reportagem logo a seguir a esta mensagem curta do Papa sobre como salvar a sua alma e não ir parar ao Inferno depois do mundo acabar.”
Mas nada de pilhagens e rixas, até porque este é um país de brandos costumes.