segunda-feira, julho 11, 2005

O meu cinema



Por vezes as pessoas fazem coisas estúpidas que nos sabem muito bem. Como por exemplo, esperar uma hora na fila da UCI no Corte Inglês para comprar um bilhete de cinema à segunda-feira, quando sem tem o melhor cinema do mundo em Lisboa. Não, não é um multi-sala, com Dolby Surround. Mas também não temos que aturar miúdas histéricas aos berros (maldita Bridget Jones) nem um troglodita qualquer a trincar pipocas com sofreguidão atrás de nós. Como detesto pipocas no cinema! Tenha-se a infeliz experiência de viver num país em que não há legendas no cinema para perceberem claramente o que estou a dizer. O pior é que acompanhado com a diabólica pipoca das multi-salas vem sempre aquele sorvo de fim de copo de Pepsi, que suga o gelo como se não houvesse amanhã.

Tudo isto evito no meu bom e velho cinema Londres. Não me venham dizer que só passa dois filmes por semana, que são precisamente esses dois os que fazem fila nas multi-salas. Vou descendo a pé a Avenida de Roma e vejo aquela caixa com luzinhas a fazer lembrar os cinemas antigos que ficavam na esquina de uma rua qualquer, com o nome do filme e dos grandes protagonistas em letras iluminadas. É o cinema da pequena cidadezinha do Mid West americano.

Aqueles bancos. Aqueles deliciosos bancos onde podíamos ver um filme de 5 horas sem nunca ficar com dor de costas. Estão elevados e assim que nos sentamos como que se enrolam sobre nós num abraço de saudade... Como que a dizer... “Onde andaste?” “Senti a tua falta, de certeza que tens ido àquelas salas de cinema-putas dos centros comerciais” enquanto nos abraçam quase até ao chão da sala. Estamos de volta ao ninho e lamentamos não haver mais amigos a pensar assim...

E o intervalo. Aquele abençoado intervalo. Quem foi idiota que inventou o cinema sem intervalo? Que cigarro tão saboroso, no sofás fofos à entrada... Nunca me esquecerei da agonia que foi o meu “American Beauty” em que aos 15 minutos já estava aflito para ir à casa de banho e sabia que ainda me esperavam duas horas de sofrimento. No Londres não precisamos de ir antes do filme. Sabemos que vem sempre o abençoado intervalo.

No Londres há velhinhos que viram o Cinema Paraíso no dia da estreia, há pessoas calmas e ordeiras, há miúdas giras da Avenida da Igreja, há um ecrã pequenino e despretencioso.
Ontem voltei mais uma vez ao lugar onde fui feliz. Como faço sempre de resto...