quinta-feira, junho 16, 2005

Thank you for the music, the songs I´m singing...




A intensidade dos últimos dias fez com que deixasse em banho-maria esta posta. Faz hoje precisamente uma semana que se discutiu a Lei da Música Portuguesa. Que querem então, editoras, intérpretes, autores e nacionalistas bacocos? O costume... quando não é a descida do IVA para o disco (que já ninguém compra) é a quota mínima de música portuguesa nas rádios. Os vários partidos do espectro político divergem quanto ao volume da quota mínima, mas estão sumariamente e em termos gerais de acordo com a ideia.

Tal proposta não faz a meu ver sentido nenhum.

Em primeiro lugar há uma dificuldade metodológica. O que é que se entende por música portuguesa? Porque há música produzida em Portugal que não é cantada em português! Porque há música cantada em português que não é produzida em Portugal! Porque há intérpretes do Brasil, de Angola, de Cabo Verde que cantam em português. Inúmeros grupos portugueses compõem os seus temas em inglês! Inclusivamente há um grupo que inventou um dialecto próprio, mas que é 100% portuguesinho! E que dizer àquelas músicas da Nelly Furtado, Pet Shop Boys ou Smoke City que têm uma ou duas frases em português? De certeza que houve algum técnico de som português na produção de um ou outro disco da Madonna ou dos Génesis.

Mas depois vamos à dificuldade técnica. Quem é que vai fiscalizar isso? Que eu saiba ainda não há nenhuma tecnologia que consiga, primeiro passar por cima do problema anterior e depois compilar um relatório diário de todas as rádios do país em simultâneo contabilizando se estão a cumprir os 30% ou 50% de quota. Ou vão ter funcionários públicos 24 horas por dia a ouvir rádio – que belo emprego!

Mas vamos à dificuldade jurídica. Esta restrição é possível dentro do Espaço Económico Europeu? (Interessante notar como é difícil proteger a individualidade das culturas nesta Europa cada vez mais indiferente a tudo).

Mas vamos à questão de fundo. É por serem obrigadas a ouvir música portuguesa que as pessoas vão gostar mais de a ouvir? Para mim funciona ao contrário. Quero mais é que os “Pimbas” e os “Joões Pedros Pais” deste país retomem os seus postos de empacotadores de supermercado quanto antes. E se eu não quiser ouvir música portuguesa? Se só gostar de ouvir Punk Rock britânico? Será que se mesmo com as quotas a venda da música portuguesa não melhorar vão obrigar as pessoas e ir a concertos amarradas, em fila indiana até perceberem do que é que têm que gostar????
Caramba a música é e sempre será a linguagem mais universal de todas! É pela qualidade que as ideias, os projectos e as pessoas se afirmam! Foi assim que vivi a minha vida na escola, na universidade e no trabalho. Não chorei a protecção de ninguém.

Sou um consumidor ávido de música portuguesa. Acho que nunca nenhum outro ser humano cantará nunca mais, como Amália Rodrigues, que poucos conhecem a alma portuguesa tão bem com Carlos Tê ou Pedro Aires de Magalhães ou que haja muitos com o estatuto de um Chico Buarque, mas também gosto de outras coisas. São escolhas individuais! Não podemos ser tão umbiguistas que possamos achar que existe tal coisa como a música portuguesa. O que existe, (se existe) é fruto de assimilação de experiências de muitos povos e de muitas culturas. O próprio fado diz-se que veio do Brasil, qual é o artista em Portugal que não tem uma referência estrangeira? Só com os constante contactos de ritmos, estilos, sonoridades, cores e movimentos pode a música continuar a crescer e reinventar-se constantemente como linguagem universal.

PS – Gostava de ver como é que a Antena 2 iria cumprir estas quotas...