sexta-feira, maio 27, 2005

Joe e a Estagiária

Preparava-me para ir para a cama quando, atraído pela suma preguiça de não ter pachorra de despir-me, lavar os dentes, ler um capítulo de um qualquer livro antes de ir dormir, espojei-me no sofá da sala para descansar as poucas células cerebrais que ainda por aqui coabitam (as refugiadas que vão sendo despachadas de um canto para o outro dos hemisférios à medida que assistem, horrorizadas, à chacina das suas companheiras - Guterres, isto vai ser mais complicado do que parece) através da actividade que melhor serve esse propósito - olhar para a televisão e, mais especificamente, para um qualquer canal de música.
Sim, olhar, porque ver requer atenção. Quando as tais células se apercebem do símbolo "MTV" ou "VH1" no canto superior esquerdo do ecrã agarram imediatamente no seu saco-cama ou, com sorte, aproveitam-se da primeira cama de rede que houver nas redondezas, esticam as perninhas e regozijam-se: "eh pá, porreiro, já não vão precisar mais de mim hoje."
Algo correu mal ontem, deve haver alguma célula novata/estagiária que está numa de mostrar trabalho, o que certamente irá criar mau ambiente entre as outras, porque às tantas dei por mim a pensar.
Era um clássico do Joe Cocker, na VH1, "Unchain my heart", um sucesso em qualquer bar de karaoke para quem tenha voz de bagaço semelhante à do dito cujo. Um videoclip como qualquer outro, mas talvez devido à falta de miúdas semi-despidas e de efeitos especiais despropositadamente brutais, e à presença taciturna constante de Mr. Cocker, dei por mim a filosofar sobre a letra da música:
"Unchain my heart/baby let me be/Unchain my heart/ cause you don't care about me"
Mas fará algum sentido? A sério, logicamente, fará algum sentido? Suponhamos que quando Joe escreveu esta canção, em meados da Idade do Bronze, estava a sofrer um desgosto amoroso devido a um amor não correspondido. Na sua opinião, ela não queria nem saber dele. Ora tendo conhecimento deste facto - ele dá-o como certo, até quis partilhá-lo com o mundo - não deveria o seu coração estar já "unchained"? Se ela estivesse no vai-não-vai, ai Joe, e tal, não sei, gosto de ti, mas não sei se consigo assumir um compromisso, além disso todo esse bagaço dá-te cabo do hálito e não consigo nem chegar-me perto de ti quanto mais beijar-te, aí eu percebia, mas ela está-se nas tintas para ti, Joe! Não há dúvidas! Partiu para outro/a! Logo, das duas uma: (i) ou escrevias uma canção melosa para tentar reconquistá-la ou (ii) ias à tua vida e arranjavas outra. Facto é que já não há hipóteses de o teu coração vir a ser "unchained", porque se por um lado ela deu-te a chave quando te pôs os patins, tanto a corrente como o cadeado já devem ter sido remetidos para outra paragem há muito tempo.
É provável que Mr. Cocker não tenha pensado no absurdo do seu raciocínio. É provável que, se o tivesse feito, a letra teria sido um desastre, que "Unchain my Heart" nunca seria um sucesso comercial a nível mundial e que ele hoje trabalharia numa repartição das Finanças na Fontes Pereira de Melo, amedontrando os clientes com os seus rugidos regados a Licor Beirão. É provável que ele tenha reconquistado a mulher que OUTRORA lhe aprisionara o coração. E é provável que, no próximo Grande Massacre das Células Cerebrais, a idiota da estagiária que me pôs a pensar nisto seja a primeira vítima.