sexta-feira, abril 01, 2005

Esparar ou não esperar??? Eis a questão!!!

Ou a crónica de um jantar comum...

Todos nós já fomos a restaurantes. Imaginem o Berto, o Marcus, o Sandro e o Fausto (nomes imaginários) uma noite de quinta-feira (data fictícia) em que combinaram ir jantar. Escolhem o restaurante. Talvez o Comes e Bebes de Alfama (por exemplo). “Mesa para quatro, por favor...”, espera-se que haja mesa. Algum iluminado, talvez Fausto diz “Devíamos ter reservado mesa”. E espera-se... É inevitável que o empregado do bigodinho, de 10 em 10 minutos, venha dizer. “Só mais 5 minutos”... Depois vem a simpática Jurandi perguntar, “Não querem beber nada, para ir aperitivando?... Surge o dilema... Pedir martinis ou caipirinhas vai engordar a conta... Mas há sempre um que não quer dar ar de pindérico, e cheio de moral pede um gin tónico... Os outros dizem o típico, “para mim nada”. É aqui que Marcus aproveita par ir à casa de banho. Depois de séculos de espera lá arranjam mesa. Pensavam que estavam instalados. Desenganem-se. Quando já estavam naquela mesa óptima com vista para o rio e para o decote da miúda da caixa, eis que chega um engravatado de bigodinho que pede muito amavelmente e com voz doce como o mel “Os senhores importam-se de trocar com aquele grupo de 12 pessoas que chegou agora mesmo?” – e claro que estes nunca esperam tanto como nós esperamos. “Claro que não” dizem todos (quando no fundo pensam "filho da puta, raios partam isto, nunca nos sai nada bem..."). “Olhe ó faxavôr, era a carta”, pede Sandro. O empregado tem que vender o seu peixe: Há comida que não está a ser muito solicitada por isso tem que se avançar com ela. Hoje temos muito bom “Pescada com todos, cabritinho no forno e a massinha de cherne". “Ahhh” (respondem todos). E os mais fracos lá vão para a massinha de cherne. “É fresca?”, ainda perguntam como que a tentar escapolir-se – Yeah right, como se alguma vez o empregado fosse dizer “Não, por acaso não é muito fresca, aliás já cá está há 3 dias, nem sei se ainda se pode comer...” Berto pede o bife à casa. Como carneirada dizem logo todos “se calhar para mim também”, mas sem salada por favor". Sim porque isto é jantar de gajos!!!!! Há uma expressão fantástica e que nunca percebi bem. Expressão essa que Fausto usa muito: “Eu se calhar vou no...”. E escolheu a pescadinha para não fazer desfeita ao empregado que iria ficar deprimido e sentido, caso ninguém pedisse a pescadinha com todos. Os empregados também são especialistas na expressão anterior. “Então vão todos para o bife à casa, menos o senhor que vai para a pescadinha...” Exacto. O momento fulcral é quando escolhem os vinhos. Pede-se a carta e há sempre um mais parvo que fica encarregado de escolher. Quando escolhe (porque era o que percebia mais, sublinhe-se) há sempre logo dois a mandar bitaites. A escolha é um processo simples. Como não se percebe nada de enologia, verifica-se quais são os 3 mais baratos. Depois de excluir esses porque parece mal, vai-se para o mais acessível e que tenha um nome parecido com “Quinte de...” ou “Solar de..”. “Achas mesmo? Alandra 2000?” Ouvi dizer que o Borba de 2001 estava muito bom este ano. Acabam por pedir o vinho da casa. É natural, o empregado disse que estava muito bom este ano... A prova do vinho é um sacramento essencial. É impressionante como qualquer Sandro ou Berto consegue verificar logo que o vinho está bom para servir. Normalmente está sempre bom. Mas se tivermos sorte há sempre o pseudo-conhecedor armado aos cucos. “Esta não está grande coisa”. E a garrafa vai para trás. Servidos que estão, não há jantar que não inclua o “Eu pedi o meu, com champignons" – que horror dizer cogumelos. Mas o idiota que pediu a pescada ainda não está servido. Aí chega o clímax da noite. A famosa cena do “COMECEM A COMER QUE ISSO FRIO NÃO TEM GRAÇA”. Ao que os outros que têm os bifes a arrefecer no prato respondem estoicamente. “Não! A gente espera. Deve estar quase a vir...”. “A sério comecem...". Ao fim de 43 minutos o heroísmo foi-se. O descarado Marcus logo diz timidamente. “Bem se calhar nós íamos começando”. Esta expressão é muito poderosa porque faz imediatamente os outros dois pegar na faca e disfarçadamente começar a cortar um bocado do bife. Acabam a refeição enquanto Fausto ainda espera pela pescada (que era muito fresca) e o empregado pergunta “Sobremesa?”. A lista vem sempre, mas resposta normal é “Para mim só café...". "Para mim também...". "Quantos cafés?". "1,2,3!! 3 cafés!!”. Bravo. Terminados estes há um grande problema para resolver. Marcus pensa, "agora outro que se sacrifique". É aí que Sandro pergunta com carinho a Fausto que ainda lutava com a pescada com todos. “Importas-te que fume?”. “Tás à vontade”. Interessante como os outros dois puxam logo dos cigarros. Chegada a hora da conta alguém faz o mítico gesto de escrevinhar na atmosfera em direcção ao empregado. Alguém puxa do telemóvel e dá sempre um número parecido com 76,34 que a dividir por quatro dá 19,85. “Ora isto dá 19,08... fazemos, 19,50? Fica 20 euros pronto...”. “Eu tenho que pagar com cartão...”. “Eu também...” “Alguém me troca uma nota de 50 euros?”
Como é diferente o jantar em Portugal.