sexta-feira, abril 22, 2005

25 primaveras

Gosto de fazer anos. Admito. Gosto que as pessoas se preocupem em ser simpáticas e se dêem ao trabalho de se lembrarem de mim pelo menos uma vez por ano. É uma tradição ilusória, bem sei, mas acho que haveria menos participantes na Quinta das Celebridades, menos road rage, e menos neo-nazis/psicopatas/miúdos de 14 anos a balearem os colegas na escola se pelo menos 3 pessoas lhes dessem os parabéns, de forma minimamente sentida, anualmente aquando do seu aniversário. É uma forma implícita de dizer "obrigado por estares vivo", o que para mim é o maior elogio que se pode fazer a qualquer ser humano.
Há, no entanto, no que toca a aniversários, uma expressão literária, que se tornou estranhamente coloquial, que sempre me intrigou: a de trocar os anos por primaveras. Porquê, pergunto eu? Há várias teorias:
- a expressão surgiu na Idade Média, também conhecida como Idade das Trevas, em que a única altura em que se vislumbrava algo, na Europa, era nos meses de Verão, em que o sol conseguia finalmente irromper pelas trevas, passando as pessoas o resto do ano na escuridão ou na penumbra. Ora isto significava que na época estival os povos medievais saíam à rua cheios de vontade de ver os seus congéneros e sedentos por acção, seja sob que forma fosse. Daí todas as guerras travadas nessa era terem sido registadas como tendo decorrido em Junho, Julho ou Agosto. E daí que o baby boom medieval fosse um fenómeno anual que ocorria sempre na Primavera (para quem não compreende matemática desde a primária: 9 meses depois dos meses de Verão). Logo, ter, por exemplo, 12 anos era sempre equivalente a ter 12 primaveras, a menos que se tivesse morrido antes de peste bubónica;
- a expressão surgiu de algum filósofo romano desconhecido. A sua mania de apenas contar os aniversários dos seus filhos a partir do ano em que eles dissessem a sua "primeira verdade" (prima veritá, mais tarde abreviado para primaverá), por exemplo "pai, o cão acabou de atirar-se de cima daquela coluna, mas isso não quer dizer que todos os cães se atirem de colunas, pois não?", além de ter revolucionado a maneira como se contam os aniversários, que se manteve em voga em várias comunidades de testemunhas de Jeová ao longo dos séculos, levou a que a mulher se separasse dele com base em "diferenças irreconciliáveis";
- a expressão é usada para fazer com que as pessoas que, ao acumular anos como de pontos BP se tratassem, envelhecem, não se sintam mal com a proximidade da Morte e se enganem ao ponto de olhar para trás e achar que a sua vida foi constituída apenas por momentos primaveris (a meu ver esta teoria é perfeitamente absurda).
Corrijo-me: gosto de fazer anos, mas não necessariamente de primaveras.